Especialistas alertam: a aproximação ocorreu porque a média da OCDE recuou, não por avanço da aprendizagem no Brasil. Resultado da avaliação mostra desempenho brasileiro ainda em nível baixo.
A redução da distância entre o desempenho dos estudantes brasileiros e a média dos alunos de países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) no Pisa 2025 não significa, necessariamente, que o Brasil tenha avançado em aprendizagem. Especialistas ouvidos apontaram que a aproximação ocorreu principalmente porque o desempenho brasileiro permaneceu relativamente estável, enquanto a média dos países da organização recuou, especialmente nos últimos anos.
O Pisa é o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, coordenado pela OCDE, entidade que reúne 38 países. Aplicado a cada três anos, o exame avalia conhecimentos de estudantes de 15 anos em matemática, leitura e ciências.
Na avaliação de Rodrigo Fulgêncio, 1º vice-presidente da Associação Brasileira de Sistemas de Ensino e Plataformas Educacionais (Abraspe), houve melhoria no longo prazo, mas parte da aproximação se explicou pela queda da média da OCDE.
“Podemos afirmar que o Brasil melhorou no longo prazo, sobretudo em ciências e leitura. No entanto, parte importante da aproximação ocorreu porque a média da OCDE caiu, especialmente em matemática”
Com os resultados de 2025, que se mantiveram similares em relação a 2022, o Brasil seguiu no grupo abaixo da média dos países da OCDE nas três disciplinas: foram 408 pontos em leitura, 377 em matemática e 409 em ciências. Nessa mesma ordem, a média de 23 países da OCDE ficou em 466 (leitura), 469 (matemática) e 486 (ciências). Cada 20 pontos equivalem a um ano escolar. Em matemática, por exemplo, o Brasil estava com cerca de 4,6 anos de atraso em relação aos membros da OCDE.
A distância já foi maior ao comparar 2006 e 2025: a diferença em leitura diminuiu de 102 para 58 (redução de 44 pontos), em matemática de 131 para 92 (39 pontos) e em ciências de 113 para 77 (36 pontos).
Para Jalman Lima, mestre em matemática e gerente da CASIO Educação, é positivo que o Brasil não tenha acompanhado a intensidade de queda observada em diversos países, mas essa estabilidade se deu em um patamar de desempenho muito baixo.
“O principal desafio continua sendo transformar essa estabilidade em crescimento real da aprendizagem matemática, ampliando a capacidade dos estudantes de interpretar situações, relacionar informações, escolher estratégias de resolução”
Jalman também destacou a dificuldade de muitos estudantes em atingir níveis altos de proficiência:
“Muitos ainda têm dificuldade em interpretar uma situação, decidir com autonomia, qual o conhecimento matemático utilizar. Ao mesmo tempo, praticamente não temos estudantes nos níveis mais altos de proficiência. E isso é um grande problema. É um desafio nas duas extremidades”
Felipe Proto, vice-presidente de Educação da Fundação Lemann, observou que o país manteve resultados relativamente estáveis enquanto a média da OCDE recuou, e que o desafio continua sendo promover ganhos consistentes.
“O país tem mantido seus resultados relativamente estáveis, enquanto a média da OCDE recuou. Portanto, embora tenha evitado uma piora, o desafio brasileiro continua sendo promover ganhos consistentes de aprendizagem”
Proto ressaltou ainda a importância de recompor aprendizagens perdidas na pandemia e de transformar melhoria relativa em prioridade nacional.
“Mais do que a posição relativa do país no ranking, o Pisa reforça a urgência de transformar a melhoria da aprendizagem em prioridade nacional, com foco em garantir que todos os estudantes desenvolvam as competências essenciais para a vida, o trabalho e a participação cidadã no século XXI”
Rodrigo Fulgêncio chamou atenção para desigualdades: entre os 25% mais favorecidos e os 25% mais vulneráveis em ciências, por exemplo, havia uma diferença de 96 pontos, quase cinco vezes o aprendizado médio associado a um ano escolar.
O Pisa 2025 envolveu 760 mil estudantes de 91 países. O Brasil participou com 30.140 estudantes. Do total avaliado no país, 72,4% eram de escolas da rede estadual, sendo 96,9% delas localizadas em áreas urbanas. Cerca de 84,7% estavam matriculados na 1ª ou 2ª série do ensino médio quando as provas foram aplicadas entre abril e maio de 2025. Nesta edição, o foco foi o letramento em ciências.
Na parte contextual, 81% dos estudantes brasileiros avaliados frequentavam escolas com restrições ao uso de celulares em sala de aula em 2025, ante 37% em 2022, proporção que superou amplamente a média da OCDE.
Siga o Jornal do Sertão e receba as notícias do sertão sergipano em primeira mão.

