Um estudo recente revelou que cerca de 50% dos alunos do 9º ano do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio no Brasil não reconhecem o debate sobre desigualdades raciais em sala de aula. A pesquisa, que foi divulgada nesta terça-feira, 26 de maio de 2026, faz parte de um levantamento inédito no Sistema de Avaliação da Educação Básica. Este estudo foi realizado em parceria entre o Núcleo de Pesquisa Afro do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e os institutos Alana e Geledés.
A advogada Karina Berardo, mãe de uma estudante de 15 anos, afirma que a discussão sobre a cultura negra e as contribuições do povo negro à formação do Brasil ainda é rara nas escolas. “Houve uma ampliação do tema a partir do ensino médio. Isso é fato. Atualmente, creio que a pauta está mais em destaque e com um viés mais positivo”, comenta Karina. Ela destaca que, até o ensino fundamental, as discussões sobre raça estavam principalmente ligadas à escravidão.
“Eu acho que é a primeira vez que a proposta é com essa perspectiva da contribuição do negro, mas ainda acho um pouco caricato”, afirma a advogada.
A pesquisa evidencia que, apesar das leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que estabelecem o ensino de história e cultura africana, afro-brasileira e indígena nas escolas, a educação antirracista ainda não se consolidou como uma prática comum. Segundo a socióloga Flávia Rios, professora da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Cebrap, a implementação da legislação tem sido irregular e depende de iniciativas de secretarias educacionais e do Ministério da Educação.
Flávia também aponta que, embora projetos tenham sido desenvolvidos nos últimos 20 anos para capacitar gestores e docentes e alterar elementos do currículo, a aplicação consistente da lei ainda é um desafio. “A questão é que a gente não conseguiu universalizar a aplicação dessa legislação e também que essa lei tivesse consistência transdisciplinar”, ressalta.
A pesquisa também indica um descompasso entre o que os professores afirmam ensinar sobre desigualdades raciais e o que os alunos reconhecem. Enquanto 81,6% dos professores do 9º ano e 71,6% do 3º ano do ensino médio dizem abordar o tema “muitas vezes” ou “sempre”, menos da metade dos alunos (46,6% do fundamental e 46,8% do médio) confirma essa abordagem. A pesquisadora Eliane Firmino, do Cebrap, destaca que essa discrepância revela a necessidade de uma aplicação mais efetiva da legislação educacional.
Por fim, a coordenadora do Programa de Educação e Pesquisa do Instituto Geledés, Suelaine Carneiro, enfatiza a importância da fiscalização e do monitoramento das políticas públicas educacionais. “A gente precisa que haja um monitoramento, ações coordenadas, material didático e formação de professores”, afirma, ressaltando a necessidade de engajamento de todos os educadores no tema da educação das relações étnico-raciais.
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