Fábio Calabrio Evangelista da Silva, do Observatório Nacional, analisou mais de 6 mil exoplanetas. Com raio, densidade e distância orbital, selecionou oito mundos com semelhanças à Terra e boa chance de água líquida.
Um pesquisador brasileiro identificou oito planetas fora do Sistema Solar com maior possibilidade de abrigar água em estado líquido e, por consequência, condições para o desenvolvimento de vida. O levantamento foi conduzido por Fábio Calabrio Evangelista da Silva, sob orientação do professor Marcelo Borges Fernandes, do Observatório Nacional.
Silva analisou dados de mais de 6 mil exoplanetas registrados em um banco de dados da Nasa. A partir de parâmetros como raio, densidade e distância orbital em relação à estrela hospedeira, o pesquisador selecionou aqueles com raio e densidade semelhantes aos da Terra e que se encontram na chamada zona de habitabilidade.
“A zona de habitabilidade é uma zona que possibilita a água líquida porque não é nem tão quente, mais próximo da estrela, e nem tão frio, para longe da estrela. Então é a zona perfeita. A gente chama de Goldilocks Zone, a Zona dos Cachinhos Dourados”
Além dessa triagem inicial, Silva estimou características da atmosfera, pressão e temperatura de superfície dos candidatos. Com esses critérios, ele elencou os oito exoplanetas mais parecidos com a Terra e, portanto, com maiores chances de possuir água líquida.
“A Terra é o único exemplo que a gente vai ter, por enquanto, para se definir vida, para se definir quais são as características necessárias para se ter água líquida”
Dos oito, o mais semelhante à Terra é o exoplaneta GJ 1002b, cuja similaridade foi estimada em 98%. Descoberto em 2022, GJ 1002b está a 16 anos-luz da Terra e orbita uma estrela anã-vermelha do tipo M, mais fria que o Sol. Cada volta em torno dessa estrela leva cerca de 10 dias.
O estudo foi apresentado nesta semana, na 6ª edição do Astrobion, evento sobre astrobiologia organizado pelo Observatório Nacional, no Rio de Janeiro.
“A gente está buscando um planeta que tenha condições similares à Terra. Mas isso não quer dizer que seja o único lugar possível de ter vida no universo, porque podem existir outras formas de vida que a gente ainda não conheça e que precisem de características químico-físicas diferentes”
Historicamente, a busca por vida extraterrestre ganhou força com a corrida espacial nas décadas de 1950 e 1960. Nas primeiras fases, as atenções estavam voltadas ao Sistema Solar — Lua e Marte — e à recepção de sinais de eventuais civilizações. A descoberta dos primeiros exoplanetas em 1992, chamados Poltergeist e Phobetor, ampliou esse horizonte: desde então foram identificados mais de 6 mil exoplanetas na galáxia, multiplicando os locais em que a vida poderia ter se desenvolvido.
Detectar sinais de vida em exoplanetas é, contudo, um desafio. Todos estão a distâncias da ordem de anos‑luz, o que impede visitas com a tecnologia atual. A investigação avança por meio da análise das atmosferas, utilizando telescópios como o James Webb para observar a luz da estrela quando o planeta transita à sua frente. Essas observações revelam assinaturas químicas que podem indicar a presença de certos compostos.
“Com alta resolução espectral, você pode ver se existe uma atmosfera, determinar a composição química da atmosfera e, com isso, você vai juntando cada pecinha do quebra‑cabeça de forma tentar definir se aquele planeta pode ter condições ideais para existência da vida ou não”
Os astrobiólogos procuram bioassinaturas — combinações de substâncias que, na Terra, estão associadas a processos biológicos, como a coexistência de metano e oxigênio. Estudos recentes sobre o exoplaneta K2‑18b indicaram sinais de metano, dióxido de carbono e uma assinatura que pode ser sulfeto de dimetila (DMS), molécula produzida por seres vivos na Terra. Como K2‑18b tem probabilidade de abrigar um oceano global, a descoberta provocou atenção na imprensa.
Pesquisadores, porém, advertiram que muitas bioassinaturas também podem ser geradas por processos abióticos, como atividade geológica ou efeitos de radiação, e que é preciso prudência na interpretação desses sinais.
“A gente tem que ter sempre muito cuidado para analisar isso e comparar com o único exemplo que a gente tem, que é a Terra, para saber se a única explicação seria uma fonte de vida ou se pode ser de fontes geológicas ou atmosféricas não ligadas à vida, que reproduziriam aquela possível bioassinatura”
Em comentário sobre a dificuldade de atribuir de forma conclusiva bioassinaturas à vida, José Aponte, do Laboratório Analítico de Astrobiologia da Nasa, observou:
“Nenhuma análise, por si só, pode garanti
A pesquisa de Silva integra o esforço crescente da comunidade científica para identificar alvos prioritários a serem observados com instrumentos cada vez mais sensíveis, enquanto a interpretação dos sinais atmosféricos segue como um campo de intenso debate e desenvolvimento.
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