Nem todo melanoma é de pele: pode aparecer em olhos, mucosas e órgãos internos. São casos mais raros, porém mais agressivos e com maior risco de metástase, aponta a 12ª edição do boletim.
Nem todo melanoma está relacionado ao câncer de pele. Com origem nas células produtoras de melanina (melanócitos), o melanoma também pode se manifestar em estruturas extracutâneas, como no olho; em mucosas, como as da cavidade oral; e em órgãos internos dos sistemas genital e digestório. Esse tipo de neoplasia maligna é menos frequente, porém mais agressivo e letal, porque tem maior possibilidade de provocar metástase e se espalhar para tecidos e órgãos vizinhos.
A 12ª edição do boletim Análises e Tendências em Câncer, lançada pela fundação nesse mês, foca no estudo do melanoma de pele e extracutâneo. Com o título Melanoma: nem sempre na pele, a publicação destaca que conhecer este tipo de câncer é o primeiro passo para enfrentá-lo.
Para enfrentar o câncer, não basta tratar. É preciso conhecer. Conhecer para prevenir, diagnosticar mais cedo, planejar melhor os serviços de saúde e orientar políticas públicas capazes de salvar vidas
diz o boletim.
As edições anuais do boletim mostram o retrato epidemiológico do câncer no Brasil e têm o objetivo de alertar a sociedade e orientar profissionais sobre prevenção, diagnóstico precoce e combate à doença. Os dados utilizados na análise são da plataforma info.oncollect, sistema que integra a coleta, organização e análise de registros hospitalares de oncologia.
Enfrentando o melanoma
O estudo aponta que o enfrentamento do melanoma de pele e extrapele no Brasil requer medidas como prevenção, diagnóstico precoce, qualificação dos registros, acesso oportuno ao tratamento e articulação entre atenção básica, dermatologia, oftalmologia, oncologia e outras especialidades médicas.
Controlar o câncer é realizar o diagnóstico da forma mais precoce possível, iniciar o tratamento da forma mais oportuna para que as pessoas se tratem e se curem do câncer. O câncer é uma doença que tem cura quando diagnosticado e tratado precocemente
essa afirmação é do consultor médico da Fundação do Câncer e coordenador do estudo, Alfredo Scaff.
Pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o padrão de tratamento do melanoma é a cirurgia da lesão primária e a remoção dos linfonodos envolvidos. Entre 2014 e 2023, a cirurgia foi o principal tratamento inicial para o melanoma de pele em todas as regiões do país, representando 84,7% de todos os procedimentos registrados. A Região Sudeste liderou com 89,6% dos casos, enquanto o Norte apresentou o menor percentual, com 64,4%.
Quanto ao deslocamento para tratamento oncológico, a maior parte dos pacientes realizou o tratamento na própria região de residência. Exceto no Centro-Oeste, onde foi observada a maior necessidade de deslocamento para tratamento oncológico (20,2%), o que, segundo a Fundação do Câncer, é um sinal de um importante gargalo de acesso à assistência especializada.
Outros tratamentos e evidências
O Instituto Nacional de Câncer (Inca) destaca que a quimioterapia é amplamente adotada no tratamento de melanomas. Em 2016, a agência reguladora aprovou no Brasil o uso de medicamentos da classe anti-PD-1: nivolumabe e pembrolizumabe; e mais recentemente o tebentafuspe, específico para melanoma ocular metastático/inoperável. Em 2020, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) aprovou a primeira imunoterapia no SUS para o tratamento do melanoma metastático, com dois agentes anti-PD-1: nivolumabe e pembrolizumabe.
Isso é um marco, já que a resposta clínica, ou seja, a melhora dos pacientes saltou de menos de 10% dos pacientes em quimioterapia para até 70% de melhora clínica dos pacientes em imunoterapia. Isso é revolucionário
essa declaração foi feita por Alfredo Scaff.
Muitas sem nenhuma efetividade
disse o coordenador de Assistência do Inca, Gélcio Mendes, ao comentar que, em relação ao tratamento do melanoma extracutâneo, as evidências para uso de imunoterapia são escassas.
O Inca ressalta que novas tecnologias costumam somar-se às terapias antigas, e não substituí-las, e que é preciso avaliar magnitude do benefício, desempenho no mundo real, relação entre custos e benefícios e capacidade de financiamento, dados os custos elevados de aquisição e implantação, além da estrutura necessária no sistema de saúde.
Apesar dos avanços, especialistas apontam que o alto custo dos medicamentos continua sendo uma grande barreira para o acesso oportuno à imunoterapia por pacientes dependentes do SUS. Segundo Alfredo Scaff, a superação desse gargalo financeiro passa pela possibilidade da compra centralizada dos insumos por parte do Ministério da Saúde e órgãos ligados à pasta.
O boletim reforça a importância do conhecimento e do planejamento para melhorar prevenção, diagnóstico e acesso ao tratamento do melanoma, incluindo suas formas extracutâneas, que demandam atenção especializada e políticas públicas ajustadas.
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