Depois de perder uma gravidez precoce aos 32 anos, Kalyane Ribeiro relata o vazio e o impacto no sonho de ser mãe. O caso evidencia a necessidade de apoio psicológico e acolhimento qualificado no atendimento.
Nascida em uma família grande em Manaus, Kalyane Ribeiro não imaginava que teria dificuldades para engravidar. Aos 32 anos, após um ano e meio de tentativas, ela passou pela perda gestacional precoce, uma interrupção involuntária da gravidez que pode ocorrer até a 20ª semana. A experiência deixou marcas e colocou em evidência um tema pouco tratado: o impacto psicológico da perda no projeto reprodutivo.
“Eu sempre falo para as pessoas que quando a gente passa por uma perda gestacional, mesmo que seja precoce, a gente entra em um buraco. Parece que a gente abre uma porta para um lugar com poucas pessoas dentro, e as pessoas que estão do lado de fora não conseguem saber o que tem lá”,
O cuidado e a atenção com a saúde mental após perda gestacional são ainda negligenciados, segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Neste Setembro Amarelo, campanha nacional de conscientização sobre a prevenção ao suicídio no Brasil, a associação chama atenção para a questão.
Muitas vezes, a perda gestacional é minimizada por familiares, amigos e até por profissionais de saúde. Kalyane relata a sensação de isolamento e a tentativa de reduzir o sofrimento com respostas prontas e pouco acolhedoras.
“As pessoas do mundo real, aqui fora, elas não querem saber. Você só escuta um ‘você vai ter que tentar de novo, vai dar certo’. Só que não é uma questão de substituir o filho, né? A gente não tá procurando um substituto”,
Para profissionais da área, a perda gestacional constitui um evento traumático que exige acolhimento e assistência especializada. Segundo o vice-presidente da comissão especializada da Febrasgo, a perda pode provocar tristeza profunda, sensação de vazio, culpa, ansiedade, dificuldade para dormir, irritabilidade e perda do interesse pelas atividades do dia a dia.
“Independentemente da idade gestacional, a perda pode provocar tristeza profunda, sensação de vazio, culpa, ansiedade, dificuldade para dormir, irritabilidade e perda do interesse pelas atividades do dia a dia. Sofrer intensamente nesse momento é uma reação humana esperada e não significa, por si só, que a mulher tenha desenvolvido uma doença psiquiátrica”,
Dados citados por especialistas indicam que entre 15% e 20% das gestações não evoluem. Profissionais ligados à Febrasgo destacam a importância do apoio durante o luto, envolvendo médicos, familiares e amigos.
“É um desafio passar por isso e é muito importante que a mulher não passe por isso sozinha”,
“A gente precisa que os médicos corram atrás também dessa assistência e se preocupem com esse estado. Porque se formos esperar a paciente retornar ao consultório quando já está deprimida, vamos perder muita gente”,
A psiquiatra consultada explica que as alterações hormonais que acompanham a gravidez e a perda também afetam o estado emocional. Segundo a médica, as alterações hormonais podem durar cerca de 15 dias e, combinadas com a sensibilidade à perda, aumentam o sofrimento.
“Os hormônios aumentam durante a gravidez e no pós-parto da mulher. Os hormônios são para manter a placenta, para manter o feto viável. Então, quando a mulher tem a perda da gestação, os hormônios também caem. Então, junto à queda hormonal, que seria igual a uma TPM, só que maior, tem a questão da sensibilidade da perda”,
Especialistas alertam que o sofrimento esperado pode evoluir para um quadro mais grave quando persiste por mais de duas semanas, com prejuízo de funções básicas como sono e alimentação, ou quando surgem pensamentos de que a vida não vale mais a pena. Nesses casos, a indicação é por acompanhamento psicológico e, quando necessário, tratamento medicamentoso para reestabilizar alterações bioquímicas associadas ao estresse.
Além da assistência formal, muitas mulheres buscam espaços de acolhimento em comunidades online. Kalyane conta que, ao criar uma dessas comunidades, encontrou força nas trocas com outras mulheres e no apoio coletivo, além do acompanhamento profissional que recebeu.
Especialistas e sociedades médicas reforçam que o desafio é ampliar a difusão dessas práticas de acolhimento e garantir que profissionais de saúde adotem postura proativa para identificar e acompanhar mulheres em luto gestacional.
Siga o Jornal do Sertão e receba as notícias do sertão sergipano em primeira mão.

