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Falta de políticas públicas trava crescimento dos eSports no Brasil, aponta colunista

Rafael Ramos
Last updated: 10/08/2026 16:34
Rafael Ramos
Published: 10/08/2026
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Falta de políticas públicas trava crescimento dos eSports no Brasil, aponta colunista

Existe um erro que o Brasil ainda insiste em cometer quando o assunto é esportes eletrônicos: tratar o crescimento da modalidade apenas pela ótica dos campeonatos organizados pelas desenvolvedoras.

Os circuitos oficiais são importantes. São eles que movimentam milhões de espectadores, revelam grandes equipes e mantêm viva a competitividade dos principais títulos. Mas acreditar que eles, sozinhos, serão capazes de consolidar os esportes eletrônicos como modalidade esportiva é limitar o futuro de todo um ecossistema.

Nenhum esporte se tornou grande apenas porque existia um campeonato profissional.

O futebol não nasceu na Série A. O vôlei não se desenvolveu apenas pela Superliga. O atletismo não vive apenas das Olimpíadas.

Todos eles possuem algo em comum: uma base estruturada.

É justamente essa base que ainda falta aos esportes eletrônicos brasileiros.

Quando pensamos em esportes eletrônicos, normalmente pensamos no campeonato. Eu penso no atleta.

Porque antes de existir um grande torneio existe um jovem procurando onde treinar. Existe uma família tentando entender se aquilo realmente pode se tornar uma profissão. Existe um treinador que ainda não sabe exatamente qual metodologia aplicar. Existe uma cidade inteira que nunca recebeu uma competição.

Enquanto o atleta depender exclusivamente dos circuitos das desenvolvedoras para encontrar oportunidades, estaremos formando poucos talentos diante do enorme potencial que o Brasil possui.

O desenvolvimento esportivo acontece muito antes da competição profissional. Ele acontece nos centros de treinamento, nas escolinhas, nas ligas locais, nos campeonatos municipais, estaduais e nacionais. Acontece quando existe continuidade.

É isso que transforma paixão em carreira.

Existe também um equívoco em transferir toda a responsabilidade do desenvolvimento da modalidade para quem produz os jogos. As desenvolvedoras têm objetivos comerciais legítimos. Elas criam produtos, organizam circuitos, fortalecem suas comunidades e impulsionam seus títulos.

Mas construir uma modalidade esportiva vai além disso. Exige políticas públicas, entidades esportivas organizadas, centros de treinamento, programas educacionais, formação de técnicos, incentivo à pesquisa, investimento em ciência do esporte e planejamento de longo prazo.

Esperar que apenas empresas privadas façam esse trabalho é ignorar como qualquer modalidade esportiva se consolidou ao redor do mundo.

Outro debate que precisa amadurecer é a falsa ideia de que eventos privados e federações ocupam lados opostos. Não ocupam. Eles possuem funções diferentes e, justamente por isso, são complementares.

Os eventos privados movimentam comunidades, geram experiências, atraem patrocinadores e fortalecem o mercado. As federações organizam o ambiente esportivo, protegem o direito dos atletas, promovem formação, criam calendários, estruturam competições e trabalham para que exista continuidade no desenvolvimento da modalidade.

Quando esses dois modelos caminham juntos, quem ganha é o atleta. Porque ele deixa de depender de oportunidades isoladas e passa a enxergar uma trajetória esportiva.

Outra dificuldade está em imaginar que uma única estratégia atende um país continental. A realidade de quem desenvolve esportes eletrônicos em São Paulo não é a mesma de quem atua no Rio Grande do Norte, no Amazonas ou no interior do Mato Grosso.

As oportunidades são diferentes. Os desafios são diferentes. O acesso à tecnologia é diferente.

As políticas públicas precisam compreender essa diversidade. Quem constrói projetos na ponta conhece as necessidades locais, sabe onde estão os talentos e entende quais caminhos fazem sentido para cada região. É preciso ouvir quem vive essa realidade diariamente.

Talvez o maior desafio dos próximos anos nem seja formar novos atletas. Será formar profissionais capazes de sustentar essa indústria.

Precisamos de gestores esportivos preparados. Empreendedores que saibam elaborar um plano de negócios. Produtores que entendam captação de recursos. Dirigentes que conheçam governança. Técnicos com metodologia. Árbitros capacitados. Administradores capazes de transformar boas ideias em projetos sustentáveis.

Durante muito tempo, bastava gostar de jogos para entrar nesse mercado. Hoje isso não é mais suficiente. Os esportes eletrônicos se tornaram uma indústria. E indústria exige gestão.

O mercado de games sempre foi movido pela paixão. Mas paixão sem planejamento cria iniciativas que começam bem e desaparecem poucos meses depois.

Se queremos um ecossistema sólido, precisamos ensinar empreendedorismo, gestão financeira, elaboração de projetos, captação de investimentos, governança e sustentabilidade. Precisamos preparar pessoas para liderar organizações, desenvolver negócios e criar oportunidades para outras pessoas. O talento precisa caminhar junto com a capacidade de executar.

Os esportes eletrônicos brasileiros já provaram que possuem público. Já provaram que possuem atletas. Já provaram que movimentam economia. Agora precisam provar que conseguem construir uma modalidade esportiva sólida.

Isso não acontecerá apenas com campeonatos. Nem apenas com desenvolvedoras. Nem apenas com o poder público. Será resultado da união entre empresas, federações, clubes, instituições de ensino, governos, organizadores de eventos e empreendedores.

Porque, no fim das contas, o verdadeiro protagonista nunca foi o jogo. É o atleta. E ele merece um ecossistema que ofereça muito mais do que um campeonato. Merece uma carreira, uma profissão e um caminho estruturado para transformar talento em futuro.

Artigo originalmente publicado como coluna de opinião na Catraca Livre.


Sobre a autora: Tábata Diniz é fundadora e CEO da Digicom, organização responsável pela liga pioneira de eSports do Nordeste e pela DigicomXP, um dos maiores eventos de cultura geek, gamer e inovação do Nordeste. Também é presidente da Federação de Esportes Eletrônicos do Rio Grande do Norte (FERN). Há uma década atua de forma pioneira no desenvolvimento do ecossistema de games e esportes eletrônicos, liderando projetos de inovação, inclusão digital, empreendedorismo e formação de adolescentes e jovens para o mercado digital. Em 2025, foi vencedora do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios. Acompanhe: @tabata_diniz.

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